Resenha || Além do tempo e mais um dia - Lu Piras

Editora: L&PM Editores
Páginas: 352
*Livro do acervo pessoal.
Até onde é possível desafiar os próprios limites?
Benjamin González Delamy teve poliomielite aos três anos. A doença paralisou suas pernas e o obrigou a passar a maior parte da infância preso a uma cadeira de rodas. Porém, ele tem a sorte de contar com uma família amorosa, que o apoia e o incentiva a não se resignar e a nunca desistir. Na escola, conta com a amizade de Angelina, uma doce menina que cuida dele e o protege.
Aos doze anos, cansado de depender dos outros e do olhar de piedade das pessoas, convence os pais e os médicos de que a amputação é sua melhor chance de poder levar uma vida autônoma: a cirurgia o habilitaria a usar próteses, e seu grande sonho é ser um velocista profissional e participar das olimpíadas. Benjamin sabe que a decisão pela amputação é apenas o primeiro passo de uma longa caminhada repleta de desafios, tanto para o corpo como para a mente.
Ao lado de Angelina, sua amiga de infância e primeiro amor, ele se sente capaz de tudo. Mas o destino lhe pregará outra peça, colocando-se no caminho dos dois. Sem Angelina, será ele capaz de lutar pelo seu sonho? Até onde vai sua determinação? E seu amor por Angelina?
Uma encantadora história sobre superação, resistência, coragem e esforços sobre-humanos – e sobre um amor além do tempo.
Alguns fatos, sentimentos e objetos sobrevivem além do tempo. São parte de nós, mesmo que permaneçam esquecidos em um canto por vários anos. Nos compõem e contribuem para que procuremos ser melhores, ou para que aprendamos com os nossos erros. São laços criados por um único instante que sobrevivem a tentativas de quebrá-los, sobrevivem a distância, ao medo, aos segredos, laços que talvez se desfiem e não se mantenham perfeitos como no início, mas que mantém uma ligação tão forte que sempre se refazem, de uma maneira melhor, mais pura, mais sincera, são laços que perduram além do tempo e mais um dia.

"Eu poderia ser apenas mais um caso de doença descrito em um parágrafo de um livro científico. Um número no percentual de estatísticas da população de deficientes físicos. Uma vítima do vírus, da superproteção familiar, do bullying, da sociedade despreparada para integrar aqueles que fogem aos padrões. Aceitar quem eu poderia ser teria sido apenas sobreviver. Eu escolhi viver."

Benjamin González Delamy é um menino que foi infectado pela poliomielite espinhal aos três anos de idade. Quando desenvolveu a doença, ele teve uma paralisia, e mesmo tendo sensibilidade em seus membros inferiores, seus pés e joelhos sofreram deformações, o que fez com que ele precisasse do uso de cadeira de rodas constantemente.
Em 1988, no auge de sua pré-adolescência, Benjamin que até então estudava em casa, sendo auxiliado por seus pais, é convencido a conhecer uma escola e conviver com as crianças ditas normais.
Depois de muita relutância, ele aceita fazer a experiência por alguns dias. E ao mesmo tempo toma uma importante decisão: deseja amputar ambas as pernas para poder usar próteses e se sentir alguém mais normal.

"Eu conheci desde sempre o valor de gestos de solidariedade, que muitas vezes recebi de estranhos. Mas só a partir do dia em que passei a frequentar um colégio onde 100% dos alunos eram garotos normais foi que eu me dei conta do que realmente era fazer parte do grupo do 1%; foi que eu conheci o peso da discriminação. Essa não era uma lição matemática; era uma lógica que eu nunca poderia esquecer."

A ida para a escola acaba trazendo a Ben vários benefícios mas também um conhecimento mais profundo da realidade da qual os pais tentavam lhe proteger. Nem todas as pessoas são boas. Uma grande parte delas prefere ser preconceituosa ao invés de conhecer a realidade daqueles que são diferentes.
Porém, nesse caminho desconhecido, Ben conhece algumas pessoas que permanecerão em sua vida por muito tempo ou que farão uma grande diferença em pouco tempo. Irmã Luzia, uma das freiras que trabalha no local, professor Marcos, que estimula o gosto do menino por esportes, e a principal delas, Angelina, uma menina calada, solitária e muito gentil que vai mudar a sua vida, e lhe mostrar o que é o verdadeiro amor, mesmo aos doze anos de idade, ou o que ele poderá vir a ser.

"Encontrei Nova Felicidade do mesmo jeito. Nos campos, os mesmos tons de verde. No vento, o mesmo cheiro das plantações. No céu, o mesmo véu estrelado escondendo a negritude da noite. O tempo não parecia ter passado por aquele lugar. Mas eu estava mais velho e sabia que nada mais era igual."

A medida que Ben faz 22, 32 anos e o tempo passa depressa ele alcança todos os objetivos pelos quais ansiou na vida. Mas nunca esquece de um, que vive em sua mente e coração. Angelina. Com tantos desencontros ele ainda espera que um dia possa ser o suficiente para ela, e tê-la ao seu lado, para se sentir completo.

"- Também te amo. Hoje, um pouco menos. - Menos? - Menos que depois de amanhã. Sempre vou te amar um dia a mais."

Esse livro me gerou bastante expectativas, e ao mesmo tempo medo. Expectativas por ser uma obra que aborda a deficiência, tema com o qual sempre convivi de perto por ser deficiente visual, e medo por não saber o modo como a autora abordaria tudo, e há motivos de sobra para receio já que vários autores fazem tudo parecer muito pior do que é.
Felizmente Lu Piras foi feliz em suas colocações no livro. Mostrou que existe o preconceito e existem aqueles que não sentem a diferença. Aqueles que estão para ajudar e aqueles que estão para prejudicar, como tudo na vida. 

Consegui compreender o personagem Ben em seus momentos de crise, querendo apenas se sentir igual aos colegas. Ele, um pré-adolescente, em plena fase de descobertas, de querer ser igual acaba se sentindo diferente. Porém algo que me perturbou bastante no livro foi o constante tema da superação. Ben precisa mostrar o tempo inteiro que é um exemplo de superação, menciona muitas vezes que conseguirá. Não que eu considere o fato de ele desejar chegar a certos lugares seja um erro, mas o fato de mencionar o tempo todo, como se fosse um livro de alto ajuda me deixou incomodada.

A personagem Angelina é uma menina muito meiga. Enfrenta bastante dificuldades até conseguir ter algo com Ben e o seu amor para mim é o ponto alto da história. Irmã Luzia é uma grande personagem que transmite calma e partes sutis falando sobre a fé. Outro ponto altíssimo é as cenas passadas em Nova Felicidade, uma fazenda localizada no Mato Grosso do Sul. Esse lugar é o que tem as melhores descrições e o leitor consegue sentir-se lá.

O título, Além do tempo e mais um dia é o mais bonito que já encontrei em todos os livros nacionais que já li, e foi muito original e criativo.

Recomendo para todos aqueles que gostam de uma história cativante, bem escrita, que mostra uma realidade talvez pouco desconhecida e um amor que as vezes é raro de encontrar.



17 comentários:

  1. Que capa linda! Essa história parece ser linda também.
    Gostei da sua resenha. Transpareceu muito o que você sentiu com o livro.
    Beijos
    Balaio de Babados

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico muito feliz que você tenha gostado da resenha. E espero que também goste do livro. :)

      Excluir
  2. Com certeza este livro está na lista dos meus desejados,quando li a sinopse pela primeira vez já fiquei encantada então preciso ler em breve esta história super emocionante.
    bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Realmente, é emocionante. Espero que goste da leitura.

      Excluir
  3. Ainda não conhecia esse livro, mas depois de ter lido sua resenha, é difícil não querer lê-lo! Confesso que pela capa, o livro passaria despercebido. Olhando sua resenha, me vi super atraído pelo livro. Adorei saber sobre o que e como a autora abordou o tema no livro! Apesar de existirem pessoas ruins e preconceituosas, é incrível ver que ainda existem pessoas boas. Adorei a resenha!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oie.
      Fico bem feliz em saber que gostou da resenha.
      Espero que goste tanto da leitura quanto eu gostei.

      Excluir
  4. Uma linda capa e pelo visto um enredo bom e gostoso. Eu como já conheço o trabalho da Lu, não penso que seria diferente. espero ler em breve.
    Bjs, Rose.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Espero que possa ler e gostar, Rose. Fiquei surpresa com o trabalho da Luh e quero conferir mais.

      Excluir
  5. Não conhecia esse livro, mas fiquei muito interessada em ler, por isso vou acrescentar na minha lista de leitura!! A capa é muito bonita também!!

    Bjsssssssss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oie, não vai se arrepender, é uma ótima história para a lista de leitura.

      Excluir
  6. Oi, Tamara. Eu não conhecia a Lu Piras, mas já avistei algumas resenhas deste livro em outros blogs literários. Além do tempo e mais um dia me chamou atenção desde seu título, passando por sua bela capa e por fim, a sua estória cativante. Fiquei impressionado em relação a sobrevivência dos laços de afeto em meio a tamanhas mentiras, ódio, mistérios, entre outros. Além, claro, da superação do protagonista doente.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Verdade,t tudo nessa história chama atençãão, principalmente esse título lindo que eu amei. A Lu foi super bem. Espero que goste do livro.

      Excluir
  7. Tamara!
    Bom saber que um livro aborda o preconceito com os PNEs.
    Também tenho deficiência motora e fico fazendo o máximo que posso para não ir para cadeira de rodas, justamente porque não que depender das pessoas.
    Imagino que tenha sido bem complicado para o protagonista tomar a decisão de amputar as pernas para ter uma melhora de qualidade de vida.
    “É mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação.”(Friedrich Nietzsche)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    Participem do nosso Top Comentarista, serão 3 ganhadores!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rudy. Boa reflexão essa do final.
      E realmente, dependência na maioria das vezes é muito triste. Em fim, o livro da Lu passa uma lição boa.
      Espero que se resolver ler, que goste da leitura como eu gostei!

      Excluir
  8. Eu mesmo procuro tentar entender cada detalhe bem devagar, já que trata de um assunto que muitas pessoas tem preconceito hoje em dia, porque como disse nem todas as pessoas são boas. Achei bem encantador o livro e os personagens, mais mesmo assim fico meio que em duvida, não pelo assunto é porque não é de costume meu ler livros assim, estou explorando outro tipo de gênero.

    ResponderExcluir
  9. Oi, Tamara.
    Odeio ficar com sensação de medo ao iniciar um livro, porque parece que minha sensação sempre acerta. Ainda bem que com você não foi assim e você super curtiu o livro.
    Fiquei interessada em ler porque conheço a autora, achei a capa super fofa, mas a história em si não me prendeu.

    ResponderExcluir
  10. Gostei muito do tema escolhido pela autora para abordar no seu livro. É um assunto sempre atual e constante em nossas vidas, e que precisa ser discutido, para que cada vez o preconceito diminua e as pessoas passem a compreender mais as diferenças que as cercam. Achei interessante os personagens que a autora desenvolve e a força que emana deles, mesmo não conhecendo a história. Também me incomodaria a repetição da superação durante o livro, mas acho que eu entenderia esse fato, à medida que sabemos como o mundo lá fora pode ser injusto se não acreditarmos em nós mesmos.

    ResponderExcluir